segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Quando a vida é mais importante que a religiosidade - Lucas 6.1-11

"E aconteceu que, no segundo sábado após o primeiro, passou pelas searas, e os seus discípulos iam arrancando espigas e, esfregando-as com as mãos, as comiam. E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados? E Jesus, respondendo-lhes, disse: Nunca lestes o que fez Davi quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, e tomou os pães da proposição, e os comeu, e deu também aos que estavam com ele, os quais não é lícito comer senão só aos sacerdotes? E dizia-lhes: O Filho do homem é Senhor até do sábado. 
E aconteceu também noutro sábado, que entrou na sinagoga, e estava ensinando; e havia ali um homem que tinha a mão direita mirrada. E os escribas e fariseus observavam-no, se o curaria no sábado, para acharem de que o acusar. Mas ele bem conhecia os seus pensamentos; e disse ao homem que tinha a mão mirrada: Levanta-te, e fica em pé no meio. E, levantando-se ele, ficou em pé.
Então Jesus lhes disse: Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos sábados fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar? E, olhando para todos em redor, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele assim o fez, e a mão lhe foi restituída sã como a outra. E ficaram cheios de furor, e uns com os outros conferenciavam sobre o que fariam a Jesus."

O ser humano tem a tendência de criar deuses que são exatamente a representação daquilo que ele é. Quando Deus revelou sua lei a Moisés, o homem a recebeu e construiu uma imagem dEle baseada em como acreditavam que o Altíssimo reagiria diante da postura deles em relação ao que poderiam ou não fazer. Era a sua própria noção de justiça que projetaram em YHWH, ou seja, a forma como agiam diante dos erros e acertos alheios, que acreditavam ser a mesma forma como Ele agiria.

Acredito ser exatamente assim que consideramos o agir de Deus. Uma vez que julgamos e condenamos, achamos que Deus também faz assim. Já que não somos misericordiosos, acreditamos que o Senhor também não o é. Se não agimos com graça e não perdoamos o nosso próximo, esperamos a mesma coisa do Pai. E, por conta disso, construímos um deus vingativo, inclemente, impiedoso, vaidoso e mesquinho, pois essa é a nossa própria imagem. Um deus que é extremamente zeloso de pequenas coisas, de minúcias. Um deus de “picuinhas”, que lança no inferno, e com prazer, a obra-prima da sua criação, por mero capricho porque o adorou num dia que não era o “dia escolhido”, porque esse alguém comeu um “pão consagrado” que não deveria comer ou tocou num objeto santificado.

Houve um tempo que as coisas foram assim, mas era preciso que fosse, pois era um tempo de aprendizado e de revelação de Deus e de seu caráter, justiça e santidade. Porém, mesmo nesse tempo, Ele já demonstrava graça e misericórdia, frutos de um amor incondicional que se revelou completamente em Cristo. E, agora, Cristo viria arrancando da Lei de Seu Pai, séculos de incrustações da maldade humana e de interpretações equivocadas, maldade e crueldade, travestidas de religiosidade, percebidas no legalismo dos fariseus que o questionavam. Tal como a “craca” que se agarra ao casco de uma embarcação ou de uma estrutura marítima que fica sempre submersa, essa influência humana aderira fortemente à Lei de Deus, pura, perfeita e boa, mas imersa em um mundo corrompido, podre e mal. E essa influência afastava mais que aproximava as pessoas de Deus e, por isso, precisava ser arrancada para que a humanidade pudesse enxergar o amor infinito de um Pai amoroso por trás de tantos mandamentos.

            O que é mais importante para você, se você tem (ou tivesse) um filho: que ele esteja alimentado ou que ele cumpra uma ordem sua, de caráter acessório? Vou melhorar isso. Deus estava mais preocupado em que seus filhos matassem a fome ou que o “honrassem”, deixando de debulhar algumas espigas de cereal, já que era um sábado? Cristo revelou o coração do Pai, mostrando aos fariseus que Deus não era como eles: impassível, inflexível, insensível às necessidades humanas, preocupado com as aparências, com a solenidade, com “pompa e circunstância”, bajulação e vanglória. Não à toa, Paulo dirá que o amor não tem qualquer semelhança com essas coisas (1 Coríntios 13). Deus se move em e por amor, simplesmente porque É amor.

            “Não, meu senhor! Não posso curá-lo desse mal que te oprime e para o qual não há uma saída apenas porque hoje é um ‘dia sagrado’ para mim”. Era isso que os fariseus esperavam ouvir do Mestre, caso o tal homem da passagem houvesse lhe pedido a cura naquele dia. Mas, o mais interessante é que o mesmo NÃO PEDIU a cura. O homem a quem muitos chamavam e acreditavam ser o Cristo estava bem ali, na sinagoga, junto com eles, mas era um sábado. “Justo hoje Jesus resolve vir aqui?!”, pode ter pensado o homem aleijado.  “Não poderia tê-lo encontrado em outro dia, na rua ou em qualquer outro canto?”, pode ter pensado, por saber da “santidade” daquele dia e do olhar julgador dos escribas e fariseus, o que o leva a permanecer calado. Mas isso não foi o suficiente para a mente maldosa dos “oficiais da Lei”. Porém, eles não tinham noção de quem estava ali com eles, e que o amor do Pai é tão abundante, que mais nada importaria para Jesus (a pregação, os rituais, as orações, etc.) além de ver o coração do tal homem transbordar de felicidade quando sua mão ruim ficar tão boa quanto a outra. Dali por diante ele teria uma vida normal.

            Portanto, de hoje em diante, creia que Deus tem o seu coração como expectativa. É você que Ele quer, não seu ritual, suas rezas, suas oferendas e/ou sacrifícios. Ele não quer seu dinheiro, suas práticas religiosas feitas sem a verdadeira motivação: amor por Ele. O que realmente deseja é ser seu Abba, seu “paizinho querido”. Ver o fruto do seu penoso trabalho se cumprindo em sua vida tem muito mais valor para Ele que milhares de práticas vazias da religião. Então, invista em conhecê-lo e amá-lo e não precisará se preocupar com dias e horas, roupas e comidas, músicas e/ou danças, palavras e rituais, mas apenas em correr todos os dias para Ele e se lançar em seus braços, assim como um filho faz com seu paizinho amado, com quem sente um imenso prazer em estar junto, mesmo que seja apenas para ficar em silêncio à sós, deitado no seu colo.

2 comentários:

  1. Muito boa Reflexão. Deus te abençoe e nos abençoe através de você!!!

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    1. Amém, meu irmão. Obrigado pelo comentário. Fica na paz!

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