domingo, 4 de julho de 2021

Religião não é nada sem novo nascimento - Lucas 5.33-39

"Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes, e fazem orações, como também os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?

E ele lhes disse: Podeis vós fazer jejuar os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?
Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então, naqueles dias, jejuarão.
E disse-lhes também uma parábola: Ninguém deita um pedaço de uma roupa nova para a coser em roupa velha, pois romperá a nova e o remendo não condiz com a velha.
E ninguém deita vinho novo em odres velhos; de outra sorte o vinho novo romperá os odres, e entornar-se-á o vinho, e os odres se estragarão;
Mas o vinho novo deve deitar-se em odres novos, e ambos juntamente se conservarão.
E ninguém tendo bebido o velho quer logo o novo, porque diz: Melhor é o velho."

Hipocrisia é definido como o ato de fingir, dissimular os verdadeiros sentimentos ou intenções. Há quem chame essa atitude de "bom-mocismo", ou seja, a tentativa de parecer um "bom-moço" quando, na verdade, não se é. A grande questão aqui é o forçar posturas, práticas que não correspondem à verdade do ser, uma espécie de adaptação de costumes mal compreendidos a um estilo de vida incompatível.

Ao ser indagado sobre a postura pouco religiosa de seus discípulos, Jesus revelou o segredo, a verdadeira dinâmica de construção da vida com Deus. Primeiro, ao fazer a analogia do jejum à postura de certas pessoas em uma festa de casamento, mais especificamente ao relacionamento entre amigos. Um amigo do noivo, que é convidado para seu casamento e, enquanto está com o ele, se alegra. Mas, se o noivo está (ou fica) ausente por algum motivo, tira todo o sentido da festa para esse amigo, deixando-o tenso, com uma sensação de vazio, num ar de tristeza, na esperança de que seu amigo retorne logo para por fim a essa situação, em que tudo parece estar em suspenso e o evento proposto não acontece, nem pode acontecer, que é a festa.

É preciso que se compreenda o que representa, o que significa o jejum. Por mais que a definição do termo seja a mera abstenção de algo, comumente, de comida, na vida com Deus o jejum e o ato de jejuar representam sentimentos específicos, e estes precisam ser bem compreendidos para que façam sentido. O jejum se refere à tristeza, ao pesar que o amigo sente pela falta do noivo e, por conseguinte, perde a vontade de se alimentar, se abstém de qualquer prazer, pois o único que o satisfaria naquele momento seria o de ter seu amigo de volta. Nesse caso, Jesus adverte seus ouvintes que viria o tempo em que sua presença física não estaria mais entre eles e, daí, teriam motivos reais para se entristecer. O vazio que sua ausência traria seria a causa do abatimento que o jejum sugere. Mas, só sente isso que ama intensamente a pessoa ausente, caso contrário, a falta pouco importa e não há motivos para chorar.

Vemos com isso que o Senhor nos ensina: atos de justiça precisam ser resultado de verdades, não simulações. Precisam ser reais, verdadeiros, não podem ser adaptados na vida de alguém de fora para dentro. Não podem parecer com uma interpretação teatral, como a atuação de um hipócrita, simulando um pesar que não existe, um falso amor. Em outras palavras, o jejum só deve partir de um coração apaixonado, que ama intensamente e de verdade.

Logo em seguida, o Mestre faz outra comparação que endossa esta compreensão: atos de justiça devem ser fruto de um processo correto de amadurecimento, sem atropelos, sem saltar etapas. Assim como só se envelhece corretamente um vinho se tudo for feito do modo adequado. Pega-se um odre novo, coloca-se o vinho recém extraído das uvas (vinho novo) e se aguarda o tempo necessário para o envelhecimento. Este é o tempo do amadurecimento dos atos de justiça, do crescimento do Fruto do Espírito. Isso significa que existem posturas, atitudes, que se desenvolvem conforme o indivíduo amadurece Ele vai sendo preparado para aquilo, de dentro para fora, e as práticas de amor fluem naturalmente, por conta do seu relacionamento com Deus.

De nada adianta forçar em um neófito "práticas religiosas" que exigem entrega, consciência, uma medida maior de fé. Fazendo isso, só se alcança a destruição, tanto do indivíduo quanto do testemunho do Evangelho. Uma vida devidamente amadurecida, envelhecida pela prática contínua do amor no cotidiano, de forma simples e ordinária, constante e firme, será o "bom vinho" no futuro, envelhecido, encorpado, muito mais saboroso e aromático que a falsa vida cristã forçada, cheia de religiosidade, mas vazia de verdade, que, cedo ou tarde, se arrebenta. Portanto, antes de pensar na prática de atos como o jejum, que só tem sentido se for uma separação para a comunhão com o Amado, examine a si mesmo e veja se há realmente um pesar em seu coração pela falta dEle. Se não for por isso, provavelmente, o jejum será mais por amor a si próprio do que por amor a Cristo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Igreja tem sido luz na escuridão ou tem acompanhado a escuridão?

  A pergunta revela um contrassenso irreconciliável, pois aquele que foi salvo por Jesus é como uma cidade edificada sobre um monte, ou sej...