quinta-feira, 14 de abril de 2022

A Igreja tem sido luz na escuridão ou tem acompanhado a escuridão?

 


A pergunta revela um contrassenso irreconciliável, pois aquele que foi salvo por Jesus é como uma cidade edificada sobre um monte, ou seja, algo impossível de esconder (Mateus 5.14). Cristo compara o novo nascimento ao ato de acender uma lâmpada. Vale lembrar que as lâmpadas daquele tempo eram como candeeiros, alimentados por azeite e acesos com fogo. É uma analogia perfeita, pois quando nascemos de novo, nos tornamos um pavio embebido na unção do Espírito Santo e começamos a brilhar quando somos incendiados pelo fogo da presença desse mesmo Espírito. Assim, passamos a fornecer luz e calor, luz que serve como referência, que guia o caminho em meio às trevas. Calor que aquece os corações, que cozinha o alimento, saciando as almas dos famintos.

Nossos irmãos do passado, da chamada Igreja Primitiva entenderam bem o que é ser luz na escuridão, pois além de alcançar almas e mais almas pelo testemunho de Cristo, ou seja, deixando a luz do fogo do Espírito arder em suas vidas, serviram eles mesmos de lâmpadas, no sentido literal, quando eram amarrados em postes pelas ruas e incendiados vivos pelo Império Romano, o que não diminuía sua fé. Pelo contrário, tornava-os ainda mais convictos e, à medida que “ardiam” em chamas, sua luz brilhava ainda mais forte, num sinal claro de que estavam cheios do azeite do Santo Espírito em suas vidas.

Então, voltemos à questão inicial. Como tem sido possível que pessoas que se dizem cristãs possam afirmar isso e não brilharem, não queimarem, não serem luz e calor na escuridão? Só há uma resposta possível dentre duas possibilidades: ou o Espírito se apagou em suas vidas, ou, na verdade, pode nunca ter sido aceso de verdade. Cabe a cada um fazer a si próprio esse questionamento. Se um dia você já ardeu, incendiado pelo fogo do Senhor, mas hoje sente que não arde mais, não emite mais luz para os que estão à sua volta, nem aquece os que estão morrendo no frio mundo da indiferença que nos cerca, hoje é dia de reacender a chama. O Agricultor está aqui, com azeite para te encher e Ele mesmo tem o fogo para acender você e te fazer queimar.

Se você sente que nunca queimou antes, nem sabe exatamente o que é isso, te convido a conhecer a Cristo, que deu a vida por você. É Ele quem verdadeiramente te ama com amor incondicional, e a única coisa que Ele espera é uma entrega também incondicional. “Como assim, incondicional?”. Sim! Uma entrega que não está condicionada à denominação, nem ao templo, nem à liturgia, nem às programações e projetos da denominação, nem aos pastores (de qualquer lugar), mas que seja uma entrega pessoal, consciente, sincera e verdadeira. Tal que mesmo que todos os templos se fechem, que os pastores renunciem seus cargos para serem apenas irmãos, que os cultos preparados para criar a “atmosfera de adoração certa” não aconteçam mais, nem hajam mais congressos ou eventos, ainda assim o compromisso pessoal e individual nunca se acabe, que a chama nunca pare de arder e que haja continuamente o desejo de brilhar a luz do Evangelho a todos à sua volta. Que o fogo arda, iluminando, aquecendo e trazendo vida por onde você passar.

Houve um homem na história chamado Willian Carey, que viveu entre os séculos XVIII e XIX que entendeu definitivamente o significado de arder, de ser uma chama na escuridão. O amor de Cristo ardia tão forte em seu coração que ele não se conformou em manter sua luz escondida entre as quatro paredes de sua casa ou do templo de sua denominação. O Senhor o fez enxergar a escuridão em que viviam os povos na região da Índia e adjacências. Ele partiu com sua esposa e filhos para levar a luz da vida e o calor do amor àquele povo. Mas, as circunstâncias o fizeram arder de outra forma: perseguições, barreiras, corações endurecidos, doenças e morte (sim, morte dentro da sua própria família) o fizeram se aproximar mais de ser uma “tocha viva” (assim como os primeiros irmãos do passado) do que um simples candeeiro. Seis longos anos para ver a primeira conversão, mais algum tempo até a conversão seguinte que logo se transformou em tragédia, pois esse novo irmão foi perseguido e morto pelos locais por ter aceito a religião cristã. A morte de um de seus filhos e de sua amada esposa, dentre tantas outras adversidades só começaram a fazer sentido quando ele descobriu que o propósito de estar ali era traduzir as Escrituras para aquele povo, que logo em seguida começou a aceitar o Evangelho.

O que motivou aquele homem a continuar? O que o manteve firme, mesmo sozinho, sem ter ninguém que o cobrasse ou o forçasse a permanecer ali? Ele poderia regressar, voltar para a sua vida de antes e seguir cuidando de seus interesses. Mas não, ele se manteve firme e focado. O que fez dele uma chama em meio à escuridão? O amor do seu Amado! Era isso que o fazia queimar e nada mais, durante quarenta e um anos de missão na Índia.

Esse amor arde mesmo em você? Se não arde, hoje é dia de ser cheio da unção, cheio do Espírito Santo, e de ser incendiado pelo amor do Senhor, que arde para a vida eterna. Mas, se arde, deixe-o CONSUMI-LO, e que essa chama se transforme em boas obras para os que te cercam, e pregação do Evangelho por onde você for, em tempo e fora de tempo (2 Timóteo 4.2), em casa, na rua, no trabalho, seja onde for. Se o fogo se apagou, pergunte a si mesmo: “o que aconteceu com o fogo? O que aconteceu com a paixão que eu sentia quando me converti? Eu preciso saber, Senhor! Eu quero descobrir o que aconteceu, pois eu preciso voltar a queimar por ti.”. Arda, queime, seja luz e calor em meio à escuridão.


terça-feira, 19 de outubro de 2021

A Última Ceia do Senhor antes de sua Paixão

Este texto é uma compilação dos trechos que compõem a narrativa completa dos últimos momentos do Senhor com seus discípulos antes de sua prisão. Leia com o coração aberto e tenho certeza que o Espírito Santo irá lhe revelar grandes coisas.

Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim. Chegou, porém, o dia dos ázimos, em que importava sacrificar a páscoa. E, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, quando sacrificavam a páscoa, mandou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos. Chegaram os discípulos junto de Jesus e lhe perguntaram: Onde queres que a preparemos? Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa? E ele lhes disse: Ide à cidade. Eis que, quando entrardes na cidade, encontrareis um homem levando um cântaro de água, [ou ele] vos encontrará; segui-o até à casa em que ele entrar. E, onde quer que entrar, dizei (a um certo homem) ao senhor da casa: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos. Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará um grande cenáculo mobilado e preparado; preparai-a ali. E os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara. E, saindo os seus discípulos, foram à cidade, e acharam como lhes tinha dito; e prepararam a páscoa.

E, chegada a tarde, foi [e] assentou-se à mesa com os doze apóstolos. E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; Porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; E, quando comiam, Jesus tomou o pão, e havendo dado graças e abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei. Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Assentados a comer, disse Jesus: Em verdade vos digo que um de vós, que comigo come, há de trair-me. E eles, entristecendo-se muito, começaram cada um a dizer-lhe: Porventura sou eu, Senhor? E outro disse: Sou eu? Mas ele, respondendo, disse-lhes: A mão do que me trai está comigo à mesa. É um dos doze, que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair. Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído! Bom seria para esse homem se não houvera nascido. Começaram[, então] a perguntar entre si qual deles seria o que havia de fazer isto, [e] respondendo Judas, o que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste.

Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós. [E] dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; Porque isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados, e todos beberam dele. Em verdade vos digo que não beberei mais do fruto da vide, até àquele dia em que o beber, novo, convosco, no reino de Deus, no reino de meu Pai.

E, acabada a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o traísse, Jesus, sabendo que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas, e que havia saído de Deus e ia para Deus, houve também entre eles contenda, sobre qual deles parecia ser o maior. E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve. E vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações. E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou, Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre tronos, julgando as doze tribos de Israel.

Levantou-se da ceia, tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Aproximou-se, pois, de Simão Pedro, que lhe disse: Senhor, tu lavas-me os pés a mim? Respondeu Jesus, e disse-lhe: O que eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois. Disse-lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se eu te não lavar, não tens parte comigo. Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça. Disse-lhe Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo. Ora vós estais limpos, mas não todos. Porque bem sabia ele quem o havia de trair; por isso disse: Nem todos estais limpos.

Depois que lhes lavou os pés, e tomou as suas vestes, e se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes. Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido; mas para que se cumpra a Escritura: O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar. Desde agora vo-lo digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, acrediteis que eu sou. Na verdade, na verdade vos digo: Se alguém receber o que eu enviar, me recebe a mim, e quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou.

Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espírito, e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair. Então os discípulos olhavam uns para os outros, duvidando de quem ele falava. Ora, um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus. Então Simão Pedro fez sinal a este, para que perguntasse quem era aquele de quem ele falava. E, inclinando-se ele sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem é? Jesus respondeu: É aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão. E, após o bocado, entrou nele Satanás. Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-o depressa. E nenhum dos que estavam assentados à mesa compreendeu a que propósito lhe dissera isto. Porque, como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe tinha dito: Compra o que nos é necessário para a festa; ou que desse alguma coisa aos pobres. E, tendo Judas tomado o bocado, saiu logo. E era já noite.

Tendo ele, pois, saído, disse Jesus: Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele. Se Deus é glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e logo o há de glorificar. Filhinhos, ainda por um pouco estou convosco. Vós me buscareis, mas, como tenho dito aos judeus: Para onde eu vou não podeis vós ir; eu vo-lo digo também agora. Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros.

Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais? Jesus lhe respondeu: Para onde eu vou não podes agora seguir-me, mas depois me seguirás. Disse-lhe Pedro: Senhor, por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a minha vida, estou pronto a ir contigo até à prisão e à morte. Respondeu-lhe Jesus: Tu darás a tua vida por mim? Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos. Na verdade, na verdade te digo que não cantará o galo enquanto não me tiveres negado três vezes. Não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me conheces.

Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho. Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.

Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto. Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta.

Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras. Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.

Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós. Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis. Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós.

 Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele. Disse-lhe Judas (não o Iscariotes): Senhor, de onde vem que te hás de manifestar a nós, e não ao mundo? Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou.

Tenho-vos dito isto, estando convosco. Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.

Ouvistes que eu vos disse: Vou, e venho para vós. Se me amásseis, certamente exultaríeis porque eu disse: Vou para o Pai; porque meu Pai é maior do que eu. Eu vo-lo disse agora antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis.

Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim; Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou. E disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a; Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento. E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta. Levantai-vos, vamo-nos daqui. E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras. E, saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e também os seus discípulos o seguiram.


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Quando a vida é mais importante que a religiosidade - Lucas 6.1-11

"E aconteceu que, no segundo sábado após o primeiro, passou pelas searas, e os seus discípulos iam arrancando espigas e, esfregando-as com as mãos, as comiam. E alguns dos fariseus lhes disseram: Por que fazeis o que não é lícito fazer nos sábados? E Jesus, respondendo-lhes, disse: Nunca lestes o que fez Davi quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, e tomou os pães da proposição, e os comeu, e deu também aos que estavam com ele, os quais não é lícito comer senão só aos sacerdotes? E dizia-lhes: O Filho do homem é Senhor até do sábado. 
E aconteceu também noutro sábado, que entrou na sinagoga, e estava ensinando; e havia ali um homem que tinha a mão direita mirrada. E os escribas e fariseus observavam-no, se o curaria no sábado, para acharem de que o acusar. Mas ele bem conhecia os seus pensamentos; e disse ao homem que tinha a mão mirrada: Levanta-te, e fica em pé no meio. E, levantando-se ele, ficou em pé.
Então Jesus lhes disse: Uma coisa vos hei de perguntar: É lícito nos sábados fazer bem, ou fazer mal? salvar a vida, ou matar? E, olhando para todos em redor, disse ao homem: Estende a tua mão. E ele assim o fez, e a mão lhe foi restituída sã como a outra. E ficaram cheios de furor, e uns com os outros conferenciavam sobre o que fariam a Jesus."

O ser humano tem a tendência de criar deuses que são exatamente a representação daquilo que ele é. Quando Deus revelou sua lei a Moisés, o homem a recebeu e construiu uma imagem dEle baseada em como acreditavam que o Altíssimo reagiria diante da postura deles em relação ao que poderiam ou não fazer. Era a sua própria noção de justiça que projetaram em YHWH, ou seja, a forma como agiam diante dos erros e acertos alheios, que acreditavam ser a mesma forma como Ele agiria.

Acredito ser exatamente assim que consideramos o agir de Deus. Uma vez que julgamos e condenamos, achamos que Deus também faz assim. Já que não somos misericordiosos, acreditamos que o Senhor também não o é. Se não agimos com graça e não perdoamos o nosso próximo, esperamos a mesma coisa do Pai. E, por conta disso, construímos um deus vingativo, inclemente, impiedoso, vaidoso e mesquinho, pois essa é a nossa própria imagem. Um deus que é extremamente zeloso de pequenas coisas, de minúcias. Um deus de “picuinhas”, que lança no inferno, e com prazer, a obra-prima da sua criação, por mero capricho porque o adorou num dia que não era o “dia escolhido”, porque esse alguém comeu um “pão consagrado” que não deveria comer ou tocou num objeto santificado.

Houve um tempo que as coisas foram assim, mas era preciso que fosse, pois era um tempo de aprendizado e de revelação de Deus e de seu caráter, justiça e santidade. Porém, mesmo nesse tempo, Ele já demonstrava graça e misericórdia, frutos de um amor incondicional que se revelou completamente em Cristo. E, agora, Cristo viria arrancando da Lei de Seu Pai, séculos de incrustações da maldade humana e de interpretações equivocadas, maldade e crueldade, travestidas de religiosidade, percebidas no legalismo dos fariseus que o questionavam. Tal como a “craca” que se agarra ao casco de uma embarcação ou de uma estrutura marítima que fica sempre submersa, essa influência humana aderira fortemente à Lei de Deus, pura, perfeita e boa, mas imersa em um mundo corrompido, podre e mal. E essa influência afastava mais que aproximava as pessoas de Deus e, por isso, precisava ser arrancada para que a humanidade pudesse enxergar o amor infinito de um Pai amoroso por trás de tantos mandamentos.

            O que é mais importante para você, se você tem (ou tivesse) um filho: que ele esteja alimentado ou que ele cumpra uma ordem sua, de caráter acessório? Vou melhorar isso. Deus estava mais preocupado em que seus filhos matassem a fome ou que o “honrassem”, deixando de debulhar algumas espigas de cereal, já que era um sábado? Cristo revelou o coração do Pai, mostrando aos fariseus que Deus não era como eles: impassível, inflexível, insensível às necessidades humanas, preocupado com as aparências, com a solenidade, com “pompa e circunstância”, bajulação e vanglória. Não à toa, Paulo dirá que o amor não tem qualquer semelhança com essas coisas (1 Coríntios 13). Deus se move em e por amor, simplesmente porque É amor.

            “Não, meu senhor! Não posso curá-lo desse mal que te oprime e para o qual não há uma saída apenas porque hoje é um ‘dia sagrado’ para mim”. Era isso que os fariseus esperavam ouvir do Mestre, caso o tal homem da passagem houvesse lhe pedido a cura naquele dia. Mas, o mais interessante é que o mesmo NÃO PEDIU a cura. O homem a quem muitos chamavam e acreditavam ser o Cristo estava bem ali, na sinagoga, junto com eles, mas era um sábado. “Justo hoje Jesus resolve vir aqui?!”, pode ter pensado o homem aleijado.  “Não poderia tê-lo encontrado em outro dia, na rua ou em qualquer outro canto?”, pode ter pensado, por saber da “santidade” daquele dia e do olhar julgador dos escribas e fariseus, o que o leva a permanecer calado. Mas isso não foi o suficiente para a mente maldosa dos “oficiais da Lei”. Porém, eles não tinham noção de quem estava ali com eles, e que o amor do Pai é tão abundante, que mais nada importaria para Jesus (a pregação, os rituais, as orações, etc.) além de ver o coração do tal homem transbordar de felicidade quando sua mão ruim ficar tão boa quanto a outra. Dali por diante ele teria uma vida normal.

            Portanto, de hoje em diante, creia que Deus tem o seu coração como expectativa. É você que Ele quer, não seu ritual, suas rezas, suas oferendas e/ou sacrifícios. Ele não quer seu dinheiro, suas práticas religiosas feitas sem a verdadeira motivação: amor por Ele. O que realmente deseja é ser seu Abba, seu “paizinho querido”. Ver o fruto do seu penoso trabalho se cumprindo em sua vida tem muito mais valor para Ele que milhares de práticas vazias da religião. Então, invista em conhecê-lo e amá-lo e não precisará se preocupar com dias e horas, roupas e comidas, músicas e/ou danças, palavras e rituais, mas apenas em correr todos os dias para Ele e se lançar em seus braços, assim como um filho faz com seu paizinho amado, com quem sente um imenso prazer em estar junto, mesmo que seja apenas para ficar em silêncio à sós, deitado no seu colo.

domingo, 4 de julho de 2021

Religião não é nada sem novo nascimento - Lucas 5.33-39

"Disseram-lhe, então, eles: Por que jejuam os discípulos de João muitas vezes, e fazem orações, como também os dos fariseus, mas os teus comem e bebem?

E ele lhes disse: Podeis vós fazer jejuar os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles?
Dias virão, porém, em que o esposo lhes será tirado, e então, naqueles dias, jejuarão.
E disse-lhes também uma parábola: Ninguém deita um pedaço de uma roupa nova para a coser em roupa velha, pois romperá a nova e o remendo não condiz com a velha.
E ninguém deita vinho novo em odres velhos; de outra sorte o vinho novo romperá os odres, e entornar-se-á o vinho, e os odres se estragarão;
Mas o vinho novo deve deitar-se em odres novos, e ambos juntamente se conservarão.
E ninguém tendo bebido o velho quer logo o novo, porque diz: Melhor é o velho."

Hipocrisia é definido como o ato de fingir, dissimular os verdadeiros sentimentos ou intenções. Há quem chame essa atitude de "bom-mocismo", ou seja, a tentativa de parecer um "bom-moço" quando, na verdade, não se é. A grande questão aqui é o forçar posturas, práticas que não correspondem à verdade do ser, uma espécie de adaptação de costumes mal compreendidos a um estilo de vida incompatível.

Ao ser indagado sobre a postura pouco religiosa de seus discípulos, Jesus revelou o segredo, a verdadeira dinâmica de construção da vida com Deus. Primeiro, ao fazer a analogia do jejum à postura de certas pessoas em uma festa de casamento, mais especificamente ao relacionamento entre amigos. Um amigo do noivo, que é convidado para seu casamento e, enquanto está com o ele, se alegra. Mas, se o noivo está (ou fica) ausente por algum motivo, tira todo o sentido da festa para esse amigo, deixando-o tenso, com uma sensação de vazio, num ar de tristeza, na esperança de que seu amigo retorne logo para por fim a essa situação, em que tudo parece estar em suspenso e o evento proposto não acontece, nem pode acontecer, que é a festa.

É preciso que se compreenda o que representa, o que significa o jejum. Por mais que a definição do termo seja a mera abstenção de algo, comumente, de comida, na vida com Deus o jejum e o ato de jejuar representam sentimentos específicos, e estes precisam ser bem compreendidos para que façam sentido. O jejum se refere à tristeza, ao pesar que o amigo sente pela falta do noivo e, por conseguinte, perde a vontade de se alimentar, se abstém de qualquer prazer, pois o único que o satisfaria naquele momento seria o de ter seu amigo de volta. Nesse caso, Jesus adverte seus ouvintes que viria o tempo em que sua presença física não estaria mais entre eles e, daí, teriam motivos reais para se entristecer. O vazio que sua ausência traria seria a causa do abatimento que o jejum sugere. Mas, só sente isso que ama intensamente a pessoa ausente, caso contrário, a falta pouco importa e não há motivos para chorar.

Vemos com isso que o Senhor nos ensina: atos de justiça precisam ser resultado de verdades, não simulações. Precisam ser reais, verdadeiros, não podem ser adaptados na vida de alguém de fora para dentro. Não podem parecer com uma interpretação teatral, como a atuação de um hipócrita, simulando um pesar que não existe, um falso amor. Em outras palavras, o jejum só deve partir de um coração apaixonado, que ama intensamente e de verdade.

Logo em seguida, o Mestre faz outra comparação que endossa esta compreensão: atos de justiça devem ser fruto de um processo correto de amadurecimento, sem atropelos, sem saltar etapas. Assim como só se envelhece corretamente um vinho se tudo for feito do modo adequado. Pega-se um odre novo, coloca-se o vinho recém extraído das uvas (vinho novo) e se aguarda o tempo necessário para o envelhecimento. Este é o tempo do amadurecimento dos atos de justiça, do crescimento do Fruto do Espírito. Isso significa que existem posturas, atitudes, que se desenvolvem conforme o indivíduo amadurece Ele vai sendo preparado para aquilo, de dentro para fora, e as práticas de amor fluem naturalmente, por conta do seu relacionamento com Deus.

De nada adianta forçar em um neófito "práticas religiosas" que exigem entrega, consciência, uma medida maior de fé. Fazendo isso, só se alcança a destruição, tanto do indivíduo quanto do testemunho do Evangelho. Uma vida devidamente amadurecida, envelhecida pela prática contínua do amor no cotidiano, de forma simples e ordinária, constante e firme, será o "bom vinho" no futuro, envelhecido, encorpado, muito mais saboroso e aromático que a falsa vida cristã forçada, cheia de religiosidade, mas vazia de verdade, que, cedo ou tarde, se arrebenta. Portanto, antes de pensar na prática de atos como o jejum, que só tem sentido se for uma separação para a comunhão com o Amado, examine a si mesmo e veja se há realmente um pesar em seu coração pela falta dEle. Se não for por isso, provavelmente, o jejum será mais por amor a si próprio do que por amor a Cristo.

terça-feira, 29 de junho de 2021

O mais importante nem sempre é o mais óbvio - Lucas 5.17-20

"E aconteceu que, num daqueles dias, estava ensinando, e estavam ali assentados fariseus e doutores da lei, que tinham vindo de todas as aldeias da Galiléia, e da Judéia, e de Jerusalém. E a virtude do Senhor estava ali para os curar.

E eis que uns homens transportaram numa cama um homem que estava paralítico, e procuravam fazê-lo entrar e pô-lo diante dele.
E, não achando por onde o pudessem levar, por causa da multidão, subiram ao telhado, e por entre as telhas o baixaram com a cama, até ao meio, diante de Jesus.
E, vendo ele a fé deles, disse-lhe: Homem, os teus pecados te são perdoados."

O sofrimento não torna ninguém bom, nem é certeza de que nos tornaremos pessoas melhores. Muita gente pensa que, quando estamos passando por uma situação difícil ou uma provação, a dor será um instrumento para nos fazer sermos melhores, mais humildes. Mas, nem sempre isso acontece. Ela pode, na verdade, acabar tendo um efeito contrário, nos deixando mais amargos, rancorosos, deprimidos, desconfiados de Deus e antipáticos para com os outros.

Nada sabemos sobre o tal paralítico da passagem em questão, apenas que ele tinha alguns amigos de muita fé e que, seja qual for o motivo, se por amizade ou caridade, desejavam vê-lo curado, caminhando normalmente. Tanto eles, quanto o paralítico, certamente, foram atraídos pela fama de Jesus, vendo nEle a oportunidade de reverter aquele quadro. O "curandeiro", rabino, "messias", seja lá como for que o vissem estava bem ali próximo deles (o texto não menciona se eles vinham de longe, mas podemos supor que, dada a dificuldade de transporte para o homem naquela situação, o paralítico deveria residir próximo ao local em que Jesus pregava naquele dia). Portanto, não poderiam perder aquela chance.

Será que aqueles homens imaginaram que ouviriam de Cristo: "Homem, os teus pecados te são perdoados"? Não era com a cura que eles contavam? Mas, o Senhor falou aquilo que aquele homem, realmente, precisava ouvir. Talvez, em seu coração, ele estivesse pensando: "Seria bom poder voltar a andar..." (a Bíblia não menciona, como em outros textos, que ele era paralítico de nascença, portanto, ele andava antes e deve ter ficado assim por algum motivo), mas, penso que não era essa a maior angústia do seu coração, pois as palavras de Jesus foram certeiras, diretas.

Ele, certamente, estava pensando em todas as suas falhas, no quanto poderia estar sendo uma pessoa amarga, rancorosa, reclamando por conta de sua paralisia. Talvez, tenha se voltado ao céu algumas vezes e perguntado: "Por que não me curas, Deus?" ou "Por que deixou que isso acontecesse comigo?". Pode até ter duvidado da Sua existência, pode ter praguejado, amaldiçoado o dia do seu nascimento, a sua vida, e até mesmo ao próprio Deus. Pode ter maltratado seus familiares e/ou seus amigos, que agiram com ele por pena. Só o Pai sabia o que ele teria feito até ali, e que, talvez, tenha até sido o motivo de estar paralítico. Mas, este mesmo Deus estava, agora, bem perto dele, Ele era real e aquilo queimava o seu coração.

"Deus existe mesmo!", talvez tenha dito aquele homem. "E, eu fiz e disse tanta coisa contra Ele...certamente, jamais merecerei qualquer coisa dEle. Sou um pobre pecador, Deus não me aceitará mais, meu destino é sofrer eternamente sem Ele, sem o seu perdão". O coração daquele homem poderia estar saltando, mais de medo que de esperança, nos instantes anteriores ao encontro que teria com o Mestre. "Não dá pra passar pela porta! Tem muita gente.", exclamou um de seus amigos. "O que faremos?", pergunta outro. "Já sei! Parece loucura o que vou dizer, mas nós podemos tentar descê-lo por um buraco no teto da casa, até o lugar onde o Mestre está.", disse um terceiro, contando com o descrédito dos demais. "É uma ideia maluca, mas, por que não? Vamos tentar!", diz o mais resoluto entre eles. 

E, naquele momento, talvez, a esperança de encontrar com Jesus em meio à multidão, apenas como mais um doente, sem nem ser notado, caso seu pedido fosse negado por conta de seus inúmeros pecados, dá lugar a uma ansiedade sem igual. "Descer pelo teto? (pensou ele) Mas, assim, todos vão me ver e o vexame será muito maior!". Mas, o que ele poderia fazer? Àquela altura, só poderia deixar as coisas acontecerem e nada mais.

"Homem...". Mais do que um substantivo, esta palavra soou como um estrondo em seu coração. Seus medos se confirmariam? Seria rejeitado, ridicularizado? Porém, logo percebeu que este vocativo soaria como consolo em seus ouvidos, pois seriam como um: "Sei quem tu és. Sei o que és: falho, pobre, pecador. Ouvi todas as tuas orações, colhi suas lágrimas. Ouvi até quando me xingou e aos seus irmãos, quando blasfemou e espraguejou. Vi suas atitudes, como maltratou quem só queria o seu bem, como foi ingrato, injusto, mesquinho e egoísta. Sei de tudo isso. Sei como o seu coração está nesse momento. E, você está certo, pois, realmente, não merece ser curado, não merece nada. Na verdade, assim como todos aqui ao nosso redor, você merece a morte eterna. Mas, EU TE PERDOO! OS TEUS PECADOS ESTÃO PERDOADOS!".

As palavras escorreram dos lábios de Jesus como água fresca sobre o sedento, como um rio de águas vivas sobre aquele homem, trazendo vida, justiça, paz, alegria, manifestando graça e misericórdia. Era tudo do qual ele precisava. O texto não relata que ele murmurou ou que reclamou a cura. Não. Ele poderia ser levado dali naquele exato momento que seu coração já estava cheio de tudo de mais precioso que o ser humano pode ter. Os segundo seguintes foram preenchidos pelos pensamentos dos escribas e fariseus que, em seus corações, indagavam a legitimidade daquele ato. Mas, até que Jesus os repreendesse, registra-se apenas o silêncio. E, naquele silêncio, a maior canção de amor que o mundo poderia ouvir estava tocando. A canção do próprio Deus redimindo o homem, a canção da reconciliação entre um filho e seu Pai.

Seu coração é mais importante do que tudo o que você possa ter ou ser. Seu amor é o que o Pai mais deseja nesse mundo e Ele já deu tudo o que tinha de mais precioso para alcançá-lo. Por isso, não tenha medo! Não se preocupe com nada. E, quem sabe, além de receber o perdão e a reconciliação com o Senhor, você ainda não consiga "voltar a andar"?

segunda-feira, 28 de junho de 2021

A importância de um chamado - Lucas 5.1-11

"E aconteceu que, apertando-o a multidão, para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré; E viu estar dois barcos junto à praia do lago; e os pescadores, havendo descido deles, estavam lavando as redes. E, entrando num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra; e, assentando-se, ensinava do barco a multidão. E, quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar. E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede.

E, fazendo assim, colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-se-lhes a rede. E fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os fossem ajudar. E foram, e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique. E vendo isto Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador. Pois que o espanto se apoderara dele, e de todos os que com ele estavam, por causa da pesca de peixe que haviam feito. E, de igual modo, também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante serás pescador de homens.

E, levando os barcos para terra, deixaram tudo, e o seguiram."

No texto acima, não está claro se Simão já conhecia o Senhor há muito ou pouco tempo (pelo contexto próximo, pelo menos, não). Certo é que Ele já havia curado sua sogra e que Simão já o considerava um mestre, mas ainda não o seguia em tempo integral. Bênçãos de Deus e conhecimento acerca do Senhor não constituem fatores determinantes de entrega total, de dedicação plena e amorosa a Ele. Podemos apenas continuar como "admiradores" de Jesus, simpatizantes descompromissados com o propósito maior, apenas seguindo o curso normal da vida.

Enquanto Simão estava ali no barco, ao lado de Jesus, ouvindo-o falar à multidão, será que ele tinha consciência que aquela era a coisa mais importante da existência que poderia estar acontecendo no Universo? Que aquilo era tudo com o qual ele deveria e passaria a se preocupar para o resto de sua vida? Às vezes, podemos estar tão próximo de Cristo e do Evangelho quanto estaríamos de qualquer outra manifestação cultural ou religiosa, mas sem sermos realmente afetados por isso.

Jesus sabia exatamente o que estava ocupando o coração de Simão e que precisava ser substituído pelo compromisso com o Reino. Ele sabia da preocupação de Simão com as coisas desse mundo e o provaria exatamente nessa área, mas de uma maneira diferente. Ele não o provaria pela dificuldade, mas pela PROSPERIDADE. Primeiro, desafiando-o a investir em algo que Simão sabia ser uma opção perdida, frustrada, um negócio infrutífero. Algo no qual apenas a intervenção divina faria a diferença. Me arrisco a dizer que o Pai até pode ter permitido que a coisa chegasse a este ponto, apenas para provar Simão. E, para que algo acontecesse, seria necessário um ato de fé, um salto no improvável, humildade, submissão, obediência e uma pitada de inocência infantil. Estes são os elementos fundamentais para o ser humano conhecer o Senhor, o Seu poder e experimentar Sua perfeita vontade.

Simão conheceu o Senhor naquele momento. Cristo mostrou que está acima de qualquer circunstância, mas colocou-o em um dilema: ao ser surpreendido por uma pesca tão abundante, poderia imaginar que a vida como pescador não era algo do qual deveria se livrar, afinal, ele já estava acostumado com dias bons e ruins. E, compreendendo que boas pescas acontecem vez por outra, ainda mais se forem abençoadas por Deus, como esta parecia estar sendo, poderia ter uma boa vida material com sua família, seguindo com a mesma atitude apática em relação ao Senhor. Ou, aceitaria a verdade que estava bem diante dos seus olhos, que o próprio Deus tinha se materializado diante dos seus olhos, e que havia um porquê daquilo estar acontecendo com ele, ou seja, Deus o estava escolhendo para algum propósito. Aquilo mesmo que o Mestre estava fazendo o envolvia, ele faria parte daquilo.

Nessa hora, o que escolher? Desfrutar a prosperidade, o milagre, a provisão, a abundância, a vida legítima e abençoada e normal que o Senhor nos dá ou abrir mão dessa segurança, para cumprir os propósitos do Senhor e carregar a cruz, à semelhança de Jesus? O Senhor proveu o sustento para a família de Simão, Tiago e João por algum tempo, com a tal pesca maravilhosa. Mas, eles sabiam que aquilo não duraria para sempre, e eles precisariam descansar, confiando que o mesmo Deus que proveu naquele momento, os garantiria no futuro, dando-lhes a provisão necessária quando eles não estivessem mais ali, com eles. E eles confiaram e partiram para cumprir. Cristo, porém, deu-lhes por meio de Simão, uma promessa de paz: "Não temas!". Eles deveriam lançar fora todo o medo e confiar no amor do Senhor. Confiar que o propósito de salvar almas era a coisa mais importante com a qual eles deveriam se preocupar dali por diante.

Eles deixaram tudo para trás e O seguiram. E você, o que fará? Continuará tendo uma admiração e consideração pelo Senhor, mas sem se comprometer, mantendo sua vida e rotina da mesma forma, ou dará um salto de fé, em humildade, submissão, obediência e confiança, inocente e infantil, assumindo seu propósito em Cristo pelo Reino?

Que o Senhor nos ajude!

A Igreja tem sido luz na escuridão ou tem acompanhado a escuridão?

  A pergunta revela um contrassenso irreconciliável, pois aquele que foi salvo por Jesus é como uma cidade edificada sobre um monte, ou sej...