terça-feira, 29 de junho de 2021

O mais importante nem sempre é o mais óbvio - Lucas 5.17-20

"E aconteceu que, num daqueles dias, estava ensinando, e estavam ali assentados fariseus e doutores da lei, que tinham vindo de todas as aldeias da Galiléia, e da Judéia, e de Jerusalém. E a virtude do Senhor estava ali para os curar.

E eis que uns homens transportaram numa cama um homem que estava paralítico, e procuravam fazê-lo entrar e pô-lo diante dele.
E, não achando por onde o pudessem levar, por causa da multidão, subiram ao telhado, e por entre as telhas o baixaram com a cama, até ao meio, diante de Jesus.
E, vendo ele a fé deles, disse-lhe: Homem, os teus pecados te são perdoados."

O sofrimento não torna ninguém bom, nem é certeza de que nos tornaremos pessoas melhores. Muita gente pensa que, quando estamos passando por uma situação difícil ou uma provação, a dor será um instrumento para nos fazer sermos melhores, mais humildes. Mas, nem sempre isso acontece. Ela pode, na verdade, acabar tendo um efeito contrário, nos deixando mais amargos, rancorosos, deprimidos, desconfiados de Deus e antipáticos para com os outros.

Nada sabemos sobre o tal paralítico da passagem em questão, apenas que ele tinha alguns amigos de muita fé e que, seja qual for o motivo, se por amizade ou caridade, desejavam vê-lo curado, caminhando normalmente. Tanto eles, quanto o paralítico, certamente, foram atraídos pela fama de Jesus, vendo nEle a oportunidade de reverter aquele quadro. O "curandeiro", rabino, "messias", seja lá como for que o vissem estava bem ali próximo deles (o texto não menciona se eles vinham de longe, mas podemos supor que, dada a dificuldade de transporte para o homem naquela situação, o paralítico deveria residir próximo ao local em que Jesus pregava naquele dia). Portanto, não poderiam perder aquela chance.

Será que aqueles homens imaginaram que ouviriam de Cristo: "Homem, os teus pecados te são perdoados"? Não era com a cura que eles contavam? Mas, o Senhor falou aquilo que aquele homem, realmente, precisava ouvir. Talvez, em seu coração, ele estivesse pensando: "Seria bom poder voltar a andar..." (a Bíblia não menciona, como em outros textos, que ele era paralítico de nascença, portanto, ele andava antes e deve ter ficado assim por algum motivo), mas, penso que não era essa a maior angústia do seu coração, pois as palavras de Jesus foram certeiras, diretas.

Ele, certamente, estava pensando em todas as suas falhas, no quanto poderia estar sendo uma pessoa amarga, rancorosa, reclamando por conta de sua paralisia. Talvez, tenha se voltado ao céu algumas vezes e perguntado: "Por que não me curas, Deus?" ou "Por que deixou que isso acontecesse comigo?". Pode até ter duvidado da Sua existência, pode ter praguejado, amaldiçoado o dia do seu nascimento, a sua vida, e até mesmo ao próprio Deus. Pode ter maltratado seus familiares e/ou seus amigos, que agiram com ele por pena. Só o Pai sabia o que ele teria feito até ali, e que, talvez, tenha até sido o motivo de estar paralítico. Mas, este mesmo Deus estava, agora, bem perto dele, Ele era real e aquilo queimava o seu coração.

"Deus existe mesmo!", talvez tenha dito aquele homem. "E, eu fiz e disse tanta coisa contra Ele...certamente, jamais merecerei qualquer coisa dEle. Sou um pobre pecador, Deus não me aceitará mais, meu destino é sofrer eternamente sem Ele, sem o seu perdão". O coração daquele homem poderia estar saltando, mais de medo que de esperança, nos instantes anteriores ao encontro que teria com o Mestre. "Não dá pra passar pela porta! Tem muita gente.", exclamou um de seus amigos. "O que faremos?", pergunta outro. "Já sei! Parece loucura o que vou dizer, mas nós podemos tentar descê-lo por um buraco no teto da casa, até o lugar onde o Mestre está.", disse um terceiro, contando com o descrédito dos demais. "É uma ideia maluca, mas, por que não? Vamos tentar!", diz o mais resoluto entre eles. 

E, naquele momento, talvez, a esperança de encontrar com Jesus em meio à multidão, apenas como mais um doente, sem nem ser notado, caso seu pedido fosse negado por conta de seus inúmeros pecados, dá lugar a uma ansiedade sem igual. "Descer pelo teto? (pensou ele) Mas, assim, todos vão me ver e o vexame será muito maior!". Mas, o que ele poderia fazer? Àquela altura, só poderia deixar as coisas acontecerem e nada mais.

"Homem...". Mais do que um substantivo, esta palavra soou como um estrondo em seu coração. Seus medos se confirmariam? Seria rejeitado, ridicularizado? Porém, logo percebeu que este vocativo soaria como consolo em seus ouvidos, pois seriam como um: "Sei quem tu és. Sei o que és: falho, pobre, pecador. Ouvi todas as tuas orações, colhi suas lágrimas. Ouvi até quando me xingou e aos seus irmãos, quando blasfemou e espraguejou. Vi suas atitudes, como maltratou quem só queria o seu bem, como foi ingrato, injusto, mesquinho e egoísta. Sei de tudo isso. Sei como o seu coração está nesse momento. E, você está certo, pois, realmente, não merece ser curado, não merece nada. Na verdade, assim como todos aqui ao nosso redor, você merece a morte eterna. Mas, EU TE PERDOO! OS TEUS PECADOS ESTÃO PERDOADOS!".

As palavras escorreram dos lábios de Jesus como água fresca sobre o sedento, como um rio de águas vivas sobre aquele homem, trazendo vida, justiça, paz, alegria, manifestando graça e misericórdia. Era tudo do qual ele precisava. O texto não relata que ele murmurou ou que reclamou a cura. Não. Ele poderia ser levado dali naquele exato momento que seu coração já estava cheio de tudo de mais precioso que o ser humano pode ter. Os segundo seguintes foram preenchidos pelos pensamentos dos escribas e fariseus que, em seus corações, indagavam a legitimidade daquele ato. Mas, até que Jesus os repreendesse, registra-se apenas o silêncio. E, naquele silêncio, a maior canção de amor que o mundo poderia ouvir estava tocando. A canção do próprio Deus redimindo o homem, a canção da reconciliação entre um filho e seu Pai.

Seu coração é mais importante do que tudo o que você possa ter ou ser. Seu amor é o que o Pai mais deseja nesse mundo e Ele já deu tudo o que tinha de mais precioso para alcançá-lo. Por isso, não tenha medo! Não se preocupe com nada. E, quem sabe, além de receber o perdão e a reconciliação com o Senhor, você ainda não consiga "voltar a andar"?

segunda-feira, 28 de junho de 2021

A importância de um chamado - Lucas 5.1-11

"E aconteceu que, apertando-o a multidão, para ouvir a palavra de Deus, estava ele junto ao lago de Genesaré; E viu estar dois barcos junto à praia do lago; e os pescadores, havendo descido deles, estavam lavando as redes. E, entrando num dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da terra; e, assentando-se, ensinava do barco a multidão. E, quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao mar alto, e lançai as vossas redes para pescar. E, respondendo Simão, disse-lhe: Mestre, havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamos; mas, sobre a tua palavra, lançarei a rede.

E, fazendo assim, colheram uma grande quantidade de peixes, e rompia-se-lhes a rede. E fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para que os fossem ajudar. E foram, e encheram ambos os barcos, de maneira tal que quase iam a pique. E vendo isto Simão Pedro, prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, ausenta-te de mim, que sou um homem pecador. Pois que o espanto se apoderara dele, e de todos os que com ele estavam, por causa da pesca de peixe que haviam feito. E, de igual modo, também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante serás pescador de homens.

E, levando os barcos para terra, deixaram tudo, e o seguiram."

No texto acima, não está claro se Simão já conhecia o Senhor há muito ou pouco tempo (pelo contexto próximo, pelo menos, não). Certo é que Ele já havia curado sua sogra e que Simão já o considerava um mestre, mas ainda não o seguia em tempo integral. Bênçãos de Deus e conhecimento acerca do Senhor não constituem fatores determinantes de entrega total, de dedicação plena e amorosa a Ele. Podemos apenas continuar como "admiradores" de Jesus, simpatizantes descompromissados com o propósito maior, apenas seguindo o curso normal da vida.

Enquanto Simão estava ali no barco, ao lado de Jesus, ouvindo-o falar à multidão, será que ele tinha consciência que aquela era a coisa mais importante da existência que poderia estar acontecendo no Universo? Que aquilo era tudo com o qual ele deveria e passaria a se preocupar para o resto de sua vida? Às vezes, podemos estar tão próximo de Cristo e do Evangelho quanto estaríamos de qualquer outra manifestação cultural ou religiosa, mas sem sermos realmente afetados por isso.

Jesus sabia exatamente o que estava ocupando o coração de Simão e que precisava ser substituído pelo compromisso com o Reino. Ele sabia da preocupação de Simão com as coisas desse mundo e o provaria exatamente nessa área, mas de uma maneira diferente. Ele não o provaria pela dificuldade, mas pela PROSPERIDADE. Primeiro, desafiando-o a investir em algo que Simão sabia ser uma opção perdida, frustrada, um negócio infrutífero. Algo no qual apenas a intervenção divina faria a diferença. Me arrisco a dizer que o Pai até pode ter permitido que a coisa chegasse a este ponto, apenas para provar Simão. E, para que algo acontecesse, seria necessário um ato de fé, um salto no improvável, humildade, submissão, obediência e uma pitada de inocência infantil. Estes são os elementos fundamentais para o ser humano conhecer o Senhor, o Seu poder e experimentar Sua perfeita vontade.

Simão conheceu o Senhor naquele momento. Cristo mostrou que está acima de qualquer circunstância, mas colocou-o em um dilema: ao ser surpreendido por uma pesca tão abundante, poderia imaginar que a vida como pescador não era algo do qual deveria se livrar, afinal, ele já estava acostumado com dias bons e ruins. E, compreendendo que boas pescas acontecem vez por outra, ainda mais se forem abençoadas por Deus, como esta parecia estar sendo, poderia ter uma boa vida material com sua família, seguindo com a mesma atitude apática em relação ao Senhor. Ou, aceitaria a verdade que estava bem diante dos seus olhos, que o próprio Deus tinha se materializado diante dos seus olhos, e que havia um porquê daquilo estar acontecendo com ele, ou seja, Deus o estava escolhendo para algum propósito. Aquilo mesmo que o Mestre estava fazendo o envolvia, ele faria parte daquilo.

Nessa hora, o que escolher? Desfrutar a prosperidade, o milagre, a provisão, a abundância, a vida legítima e abençoada e normal que o Senhor nos dá ou abrir mão dessa segurança, para cumprir os propósitos do Senhor e carregar a cruz, à semelhança de Jesus? O Senhor proveu o sustento para a família de Simão, Tiago e João por algum tempo, com a tal pesca maravilhosa. Mas, eles sabiam que aquilo não duraria para sempre, e eles precisariam descansar, confiando que o mesmo Deus que proveu naquele momento, os garantiria no futuro, dando-lhes a provisão necessária quando eles não estivessem mais ali, com eles. E eles confiaram e partiram para cumprir. Cristo, porém, deu-lhes por meio de Simão, uma promessa de paz: "Não temas!". Eles deveriam lançar fora todo o medo e confiar no amor do Senhor. Confiar que o propósito de salvar almas era a coisa mais importante com a qual eles deveriam se preocupar dali por diante.

Eles deixaram tudo para trás e O seguiram. E você, o que fará? Continuará tendo uma admiração e consideração pelo Senhor, mas sem se comprometer, mantendo sua vida e rotina da mesma forma, ou dará um salto de fé, em humildade, submissão, obediência e confiança, inocente e infantil, assumindo seu propósito em Cristo pelo Reino?

Que o Senhor nos ajude!

A Igreja tem sido luz na escuridão ou tem acompanhado a escuridão?

  A pergunta revela um contrassenso irreconciliável, pois aquele que foi salvo por Jesus é como uma cidade edificada sobre um monte, ou sej...